Uma meditação jovem que vale muito a pena ler:

 

Paula:  Eu não sei porque estou aqui. Você sabe que eu não sei rezar. E que raramente ligo pra esse negocio de religião. Mas hoje me deu uma vontade louca de bater um papo com Você. Falar um pouco de mim, das coisas lá de casa. da minha turma, da minha garota, da turma chata que eu não topo muito. Dos meus problemas que não estou conseguindo resolver direito. E de uma porção de coisas que estão roendo aqui dentro. Eu não queria vir, Você sabe disso. Nunca fui de procurar igreja. Fico fora de ambiente, agoniado e me dá uma vontade louca de ir embora e eu acabo com vergonha de mim mesmo e sem palavras pra dizer o que eu sinto…

Mas hoje eu estava passando ali fora e escutei alguém cantando um troço tão bacana sobre Deus que achei que podia levar um papo mais sério com Você. E aqui estou eu. Tenho um milhão de coisas a comentar. A primeira delas é minha vida. Eu gosto da vida, entende? Acho bacana viver, gozar, saber que eu sou único e que eu estou caminhando com toda essa gente para alguma parte ou alguma coisa de melhor. Eu não teria motivos de reclamar contra tudo. Mas tem dias que a barra começa a pesar e eu vou acumulando tudo aquilo dentro de mim. Começo a ficar angustiado.

 

Marco:  É duro quando a gente não tem amigos pra bater um papo, quando a turma de casa não entende a gente. Eu passei horas sem ter ninguém pra me entender. E foi duro curtir sozinho a solidão que comecei a sentir e o peso que me esmagava lá por dentro.

Eu comecei a me revoltar, e me esquentei. Pensando em gritar, em bater, em espancar, em ferir. E em dizer umas verdades que afinal de contas eu sabia que ninguém ia escutar. Olha Cristo, eu sou franco, eu não topava muito com Você. Agora as coisas estão mudando um pouco mas às vezes não dá pra aceitar tudo o que dizem de Você. Eu sei que Você morreu naquela cruz e que Você amava demais mesmo. Eu sei que Você pedia justiça e sabia perdoar sempre, coisa que eu acho muito duro e quase impossível de fazer. Acho que ninguém, nem o mundo inteiro junto vai conseguir fazer o que Você fez. Você era legal e coerente e eu topo as respostas que Você deu para aquela gente importante e as lições de humildade que Você deu para os doze. A ternura que Você teve para as crianças. Aquelas coisas bacanas de fraternidade e amor que Você falava.

 

Paula:  O cara que falasse como Você falou, hoje em dia, em qualquer lugar do mundo, acabaria do jeito que Você acabou. Por isso eu acho que ninguém consegue fazer o que Você fez. Alguns imitaram e chegaram perto e eu topo esses caras. Também ninguém viveu muito tempo. Ser amigo seu é perigoso. Você envolve demais e não se contenta com mediocridade.

Falando nisso, já faz muito tempo que eu falei com Você, eu era bem pequeno. Depois veio a vida e eu precisei crescer e achar um lugar no mundo. Acho que Você entendeu e acho que Você vai entender que me custou muito caro passar da infância para a realidade.

 

Marco:  Eu me afastei de Você por um porção de coisas. A primeira delas foi a religião. Eu não sou contra a religião. Ma há tanta caricatura por aí que acabei me enchendo. Tem muita mentira nessa gente que ensina coisas bonitas e não vive o que ensina. Vi gente grande mentindo, roubando no comércio. Caluniando, explorando os mais fracos, aproveitando-se das irmãs e das garotas dos outros. Batendo nos filhos, bebendo, maltratando meio mundo, prejudicando os outros. E depois dando uma de moralista por cima dos outros.

Era gente que se dizia Cristã e vivia de crucifixo no peito e eu não topei esse negocio. Eu sabia que eles não eram Cristãos. E achei que era melhor não fazer parte dessa gente e dessa farsa. Segui o meu caminho. Havia gente bacana sim, mas acabei preferindo o meu caminho e as minhas conclusões. Não achei que havia gente interessada em levar Você aos jovens. Queriam levar a religião e aumentar o número, só isso. E eu não queria ser Cristão só pra fazer número.

 

Paula:  Mas não abandonei Você, e um dia desses vou voltar se perceber que vale a pena.

Eu me cansei também de toda essa gente que me dizia o que era pecado sem me dizer o que era virtude. Eu não estava disposto a mudar e trocar meus hábitos por um cara que eu não conhecia. E Você para mim não passava de um ilustre desconhecido. Você sabe que eu sou sincero. Eu vou atrás do que pra mim é vida e eu não gostei da religião fúnebre que me proibia certo tipo de amor, mas não me ensinava o caminho certo para os outros. Eu nasci porque Você me disse sim e eu não aceito viver
ouvindo não para tudo.

Você me conhece melhor do que eu, eu aprontei sim. Mas pelo menos eu achei que estava certo. Pelo menos eu tive a coragem de fazer o que eu julguei que devia ter feito, não vou esconder não. Você viu tudo. Uma das coisas foi o sexo, que nem sempre consegui controlar como dizem que devo, e que nem sempre da pra evitar. Minha turma toda faz isso, Cristo. E eu não sou diferente. As vezes eu não acho isso válido e eu tenho uma vontade louca de mudar entende? Porque eu acho que o que é feito sem amor rebaixa a gente. E mesmo quando é feito com amor, eu tenho mil perguntas sobre mim e sobre minha responsabilidade. Eu não sou tão vazio assim. Mas nessas horas eu fico vazio, e sei que preciso encarar melhor o amor humano. Mas não é fácil quando eu preciso viver num mundo que usa e abusa das nossas tendências, Cristo.

 

Marco:  Você tem muito menos força dentro de mim do que a imprensa com suas revistas, os filmes, os jornais, as garotas de ocasião, a turma com sua pressão.

Às vezes eu tenho ódio da minha família, e até de mim mesmo. E eu não queria isto. Eu não queria ter ódio de ninguém porque nasci para amar e sinto dentro de mim uma gana de amar e de ensinar e acabo não podendo fazer nada porque eu tenho mil perguntas não respondidas e milhões de respostas para perguntas que eu não formulei.

Paula:  Por que é que até agora, com dois mil anos de Cristo, o mundo ainda respira violência e ódio enquanto promove a morte? Por que Você não esteve presente em tudo? Por que a fome? As revoltas? A exploração do mais fraco? As guerras? O medo? A mentira? O crime? A violência?

Os homens acreditam que Você nasceu, e dizem que Você é Deus e homem mas não acreditam no que Você disse. Para eles Você está por fora da realidade, ninguém quer ouvir o outro, ninguém ofereceria a face para outra bofetada Cristo, ninguém quer amar o inimigo, todo mundo quer é subir na vida mesmo à custa dos outros. A exploração e as mentiras ainda são as melhores formas que eles encontram de fazer fortuna rápida. Quem passa fome não recebe nem um olhar sequer. Existe compaixão mas não existe caridade.

 

Marco:  Acho que estava com saudade da paz que Você tem. Um pouco foi aquela música, um pouco foi meu vazio. Um pouco foi essa vontade de amar e ser amado. Eu queria alguém que me ouvisse uma vez. Nem que eu dissesse coisas estúpidas.

Eu vou parecer cafona e “sentimentalóide”, mas eu estou com um nó na garganta e se eu não cuidar, eu vou acabar chorando, Cristo.

 

Paula:  Puxa, como eu queria viver a vida. Eu quero acertar o meu caminho. Eu não sou tão velho para chorar o meu passado e me desesperar pelo que eu não fiz. Apenas estou começando e eu preciso encontrar um caminho que não seja um atalho. Eu tenho o direito de ver céu no meu futuro, eu preciso acreditar que ainda é possível amar sem querer retribuição. Eu preciso ser eu quando todo mundo exige que eu seja como os outros. Eu nunca vou saber parte dos outros se primeiro não aprender a conviver comigo mesmo. Eu sou jovem!!! Eu sou jovem!l! Eu sou gente!!! Eu sou transição mas também sou certeza. Eu sou solução. Eu sou garantia de que tudo isso aqui pode ser melhor. E eu preciso acreditar nisso. Mas para eu acreditar eu precisava ter certeza de que o mundo estava feliz com o meu nascimento e Você sabe que não é isso que estão falando dos jovens. Para os que mandam na opinião pública nós servimos para slogans, onda, comércio e palavreado bonito. Mas não nos ajudam a crescer como gente de princípios. Somos manchete só quando erramos ou aceitamos o jogo do esvaziamento interior.

 

Marco:  Foi bom ter vindo, Cristo. Foi muito bom!!! Descobri que sou melhor do que pensava. Tenho pouco para oferecer em retribuição. Mas uma coisa eu digo, Cristo: Você pode contar comigo. Obrigado por ter me ouvido com paciência…